Exame explicitou problemas acarretados pela proliferação de faculdades de Medicina no país
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), cujo resultado foi divulgado nesta semana em consonância com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), escancarou aquilo que muitos preferiam ignorar: cerca de 30% dos cursos de medicina não atingiram o nível mínimo esperado, de 39 mil estudantes avaliados, 13 mil alunos não têm o conhecimento básico que a medicina exige. Trata-se de reconhecer que há cursos que falham estruturalmente em formar médicos.
Os dados também revelam um padrão conhecido por quem vive o sistema por dentro: faculdades federais e estaduais apresentam desempenho superior, enquanto grande parte das instituições privadas e das municipais concentra os piores indicadores. Não é acaso. Universidades públicas contam com hospitais próprios, integração real com o SUS, professores qualificados dedicados e financiamento estável. Já muitos cursos privados operam com mensalidades caríssimas, prática clínica insuficiente e estruturas improvisadas.
O efeito é perverso. O estudante paga caro, frequentemente se endivida por décadas, e sai sem a formação mínima necessária. Quem paga a conta final é a população mais vulnerável, atendida justamente por esse jovem médico nos plantões de emergência. E emergência não é lugar para amadores. É o espaço onde decisões precisam ser rápidas, técnicas e responsáveis, onde o erro custa vidas.
A virtude central do Enamed é avaliar a formação durante a graduação, e não depois que o dano já pode ter ocorrido. Regular após a formatura é sempre tarde demais. Mais do que diagnóstico, ele inaugura uma lógica consequente de regulação. Cursos com desempenho insatisfatório estarão sujeitos a sanções reais: redução de vagas, suspensão de novos ingressos, retirada de bolsas e incentivos públicos, bloqueio de financiamento estudantil e, fechamento da escola. A mensagem é inequívoca: as instituições terão de melhorar ou sair do sistema.
Causa estranheza ver setores corporativos tentarem capturar esse debate. O Conselho Federal de Medicina, que pouco fez para conter a abertura indiscriminada de cursos, agora defende mecanismos punitivos apenas após a formatura. Isso não é regulação moderna; é transferência de responsabilidade. O problema nasce na formação e é lá que deve ser enfrentado, e a regulação é do MEC.
Também é preciso ser honesto com os estudantes. Minha posição é clara: o aluno que está no início do curso em uma escola mal avaliada deve considerar sair e tentar vaga em outra instituição. Permanecer em um curso sem hospital, sem prática adequada e sem desempenho comprovado não é perseverança; é aceitar um risco desnecessário para a própria carreira e para os pacientes, sem contar o desperdício de investimento financeiro.
Fonte: Ludhmila Hajjar/O Globo
Foto: Freepix
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COMENTÁRIO SUJEITO A APROVAÇÃO DO MEDIADOR.