Nada ali saiu errado.
O posto que fingia abastecer fazia o que tinha que fazer: gerar nota.
A obra que nunca existiu cumpriu sua função: justificar pagamento.
A licitação não foi fraude foi roteiro.
A prefeitura virou sede administrativa do esquema.
O banco virou caixa eletrônico institucional.
O contrato virou salvo-conduto.
E o sigilo, claro, virou política pública.
Todo mundo conectado.
Político, empresário, banco, advogado, juiz, fiscal.
Corrente grossa, bem lubrificada, com rabo preso em todas as pontas.
Ninguém cai sozinho quando o sistema inteiro está amarrado.
Enquanto isso, a cidade apodrecia com método.
Posto de saúde fechado.
Rua esfarelando.
Obra só na placa.
Mas no discurso, sempre tinha praça, asfalto, hospital em algum PowerPoint invisível.
A primeira-dama não roubava.
Ela “colocava na conta do povo”.
Mensalidade, faculdade, conta pessoal…
Tudo debitado na paciência coletiva.
E quando alguém perguntava “cadê?”, vinha o riso curto, confortável.
Porque quem ri sabe:
ninguém ali está limpo o suficiente pra apontar o dedo.
A imprensa chegou.
Veio escoltada não pela polícia, mas pela claque.
Palhaço defendendo r4to.
Gente aplaudindo quem saqueou.
Cegueira seletiva travestida de convicção.
E no fundo de tudo, sempre o mesmo diálogo silencioso:
— “Por que vocês roubam?”
— “Porque vocês deixam.”
Turilândia não é exceção.
É manual.
É o interior funcionando como o sistema gosta:
longe, abafado, normalizado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
COMENTÁRIO SUJEITO A APROVAÇÃO DO MEDIADOR.