O apelido Alexandre de Moraes não é apenas um "meme" das redes sociais. É a tradução simbólica de uma persona investida de atributos como firmeza, coragem e poder
Daí nasceu o “Xandão”. O apelido popular não é apenas um “meme” das redes sociais. É a tradução da construção simbólica de uma persona institucional investida de atributos extraordinários: firmeza, coragem, capacidade de decisão em momentos críticos. Trata-se, em termos teóricos, da atualização contemporânea de um fenômeno antigo da política: o mito homérico de Ulysses. A filósofa Hannah Arendt, em A Condição Humana, analisa essa figura a partir da tradição da pólis grega.
Para Arendt, o herói homérico é aquele que se revela no espaço público por meio da ação e do discurso. Sua grandeza não deriva apenas do resultado de seus atos, mas do fato de agir diante dos outros, sob o olhar da comunidade política. A ação extraordinária rompe a rotina do comportamento cotidiano e projeta o indivíduo na história. O herói busca aquilo que os gregos chamavam de imortalidade da fama. Sua biografia passa a ser construída pelas ações que realiza diante da coletividade. A política, nesse sentido, é o espaço onde o indivíduo deixa o âmbito privado para se expor ao julgamento público.
Nos últimos anos, Moraes passou a ocupar esse lugar simbólico na política brasileiro. Sua atuação firme contra a radicalização antidemocrática transformou-o em protagonista de uma narrativa institucional de resistência. Para muitos, ele encarnava o magistrado capaz de enfrentar o poder político quando este ameaça as regras do jogo democrático. O problema das narrativas heroicas, que situam o indivíduo acima das instituições, é que são voláteis. Dependem de uma coerência permanente entre a figura pública e a conduta privada. Qualquer fissura nessa coerência pode provocar a desmitificação.
Fonte: Luiz Carlos Azedo/Estado de Minas
Foto: Sergio Lima/AFP
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