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RN POLITICA EM DIA 2012 ENTREVISTA:

sexta-feira, 2 de julho de 2021

JOGO DUPLO DE PM NA CPI DA COVID CRIA RISCOS PARA BOLSONARO E OPOSIÇÃO

Um policial militar que também trabalha representando empresas de produtos de saúde dá uma entrevista-bomba denunciando pedido de propina no Ministério da Saúde para negociar vacina. É chamado a depor na CPI e apresenta nova denúncia, dessa vez contra um deputado que tem um irmão servidor no ministério. Esse deputado e o irmão dele, porém, são os mesmos que já tinham relatado ao presidente Jair Bolsonaro irregularidades na liberação de outra vacina. Ou seja, gente que colocou Bolsonaro no meio do escândalo, mesmo sem acusá-lo de tomar parte nas ilicitudes.

Senadores de oposição sentiram cheiro de manobra no depoimento do PM Luiz Paulo Dominguetti Pereira, uma forma de desqualificar as denúncias do deputado Luis Miranda (DEM-DF). Na entrevista, Dominguetti havia queimado um funcionário do terceiro escalão do Ministério da Saúde em um negócio que nunca foi adiante. Na CPI — onde só foi chamado para depor por causa dessa entrevista — mirou o denunciante de uma irregularidade da qual um peixe bem maior, Bolsonaro, teve conhecimento. Seria como sacrificar um peão para preservar o rei.

O PM mostrou um áudio em que o deputado tentaria intermediar uma negociação, mas o espanto inicial logo deu espaço ao descrédito. A gravação não mencionava vacinas nem especificava o produto negociado. Ao GLOBO, o empresário que enviou o áudio para o PM disse que ele não tinha nada a ver com vacina. O próprio deputado mostrou depois que a gravação era relacionada a um outro negócio que tocou no ano passado. Mas, para uso político, isso pouco importa.

Bolsonaro não é conhecido pela precisão das suas falas ou por colocar todas as informações em contexto. Pelo contrário. Poderá facilmente pinçar a parte do depoimento que lhe é mais favorável, deixando de lado os pontos que desmentem essa versão. Na live desta quinta-feira, Bolsonaro disse que foi “bonito” na CPI quando o PM disse “um negócio lá meio esquisito”.

Senadores governistas presentes à sessão rechaçaram a ideia de que foi tudo armado. Até centraram suas falas para rebater a acusação feita pelo PM na entrevista à imprensa, de que houve pedido de propina no Ministério da Saúde. Mas quase não mencionaram o áudio apresentado, seja para desqualificá-lo, seja para usá-lo como prova contra o deputado Miranda. A exceção foi o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, que chegou a dizer que estava claro que Miranda falava de vacina na gravação.

O jogo jogado nesta quinta na CPI também traz riscos ao governo. A maioria oposicionista deverá manter o foco na investigação da denúncia do deputado e poderá tentar descobrir o que está por trás da atitude do PM, que foi à CPI falar de uma coisa, mas acabou revelando um áudio até então desconhecido. Muita coisa ainda pode aparecer.

Fonte: Analítico/O Globo

Foto: Agência O Globo

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